Os recentes desdobramentos provocados pela polêmica "Comissão da (meia) Verdade" - sim, porque ela
pretende-se unilateral, usa apenas um lado da moeda pretensamente qualificado
como "vítima" - repercutiram também (e principalmente) no meio
militar nacional, com ênfase para os membros da reserva que compõem o Clube
Militar. A troca de farpas entre o governo (leia-se a presidente Dilma Rousseff
e suas fieis escudeiras, secretárias da Casa Civil, ademais do Ministro da Defesa,
Celso Amorim) e nossas gloriosas Forças Armadas, deram azo a incontáveis
pronunciamentos das camadas mais aculturadas da sociedade, em sua maioria
emprestando incondicional apoio a estas últimas e em claro sinal de
descontentamento em relação ao status quo
reinante, a partir da ascensão do PT ao poder, em 2003. Não é para menos e,
particularmente, penso que esteja sendo até uma reação tardia, extemporânea,
"faísca atrasada" do nosso povo, enfim.
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Decorridos oito anos do governo Lula e um ano do atual, já ingressando ao
segundo exercício (portanto, no décimo ano presidencial encabeçado por esse
partido e seus interesseiros parceiros que lhe dão suporte), parece patente a
constatação de um sério (e crescente) desgaste da filosofia defendida pelos
petistas e suas camarilhas, criando não apenas pontos ostensivos de atrito com
a sociedade mais atenta, como também com os próprios partidos políticos aliados
e que lhe emprestam o necessário suporte para que Executivo e Legislativo
praticamente falem e ajam em uníssono (e, não raro, com a aquiescência do
Judiciário), um apoiando o outro em dupla mão de interesses dúbios, enquanto os
desmandos se sucedem de maneira ostensiva e denigrente da nossa imagem como
nação em desenvolvimento. Estamos nos tornando, em suma, motivo de chacota
mundial, a ponto de motivar o Secretário Geral da FIFA - Jerome Valke - a
afirmar, em relação às obras da Copa da FIFA: "O Brasil precisa tomar um
chute no traseiro", ou algo no estilo, mas com essa conotação pejorativa
em relação ao desempenho governamental responsável pelas obras do mundial de
futebol - embora, saliente-se, este senhor não poderia ter generalizado sua
venenosa verve, alcançando toda a sociedade brasileira, que culpa alguma tem na
inépcia estatal, salvo ter votado, ingenuamente, nela.
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Enquanto isso ocorre em um cenário específico (futebol), em inúmeros
outros persiste uma teimosa contra-corrente que mantém nossa nação no estado lastimável
em que se encontra, não é de hoje, mas com maior ênfase a partir da ascensão do
PT. Primeiro: uma política populista e perversa de incentivo ao consumo
desmesurado (a título de "inclusão social"[sic]), com mais que
previsíveis resultados, inundou as ruas e rodovias do País com um incremento
criminoso de veículos de todo porte (mas, principalmente, de transporte
individual), sem qualquer adequação prévia de uma existente infra-estrutura
viária paupérrima e potencialmente assassina. Da noite para o dia, saíram às
ruas e rodovias automóveis e motocicletas de toda espécie, provocando
previsível caos no já conturbado trânsito nacional. O crédito fácil foi
massificado (aumentando os já estratosféricos lucros bancários), gerando
natural incremento dos níveis de endividamento da população menos educada e,
muito menos ainda, aculturada e/ou preparada para enfrentar um já natural
movimento veicular caótico. Em um piscar de olhos, pátios de revendedoras de
veículos (novos e usados) ficaram entupidos, desequilibrando substancialmente o
mercado de oferta e procura, ademais de causar sérios prejuízos a um volume
considerável de empresários do ramo, enquanto o repreensível marketing político
(que daria inveja ao Marechal Goebbels, mestre da propaganda nazista)
contabilizava os crescentes votos dos incautos, certos de estarem sendo
"incluídos" na sociedade até então inatingível para eles. Segundo: os
tais PACs são o maior engodo de que se tem conhecimento. Ou ficam no papel ou
são implementados a conta-gotas e parcialmente ou, ainda, servem para
beneficiar alguém de interesse dos que ocupam o poder e ao enriquecimento ilícito
de certos apaniguados. Mas a propaganda "goebbelsiana" continua
irretocável, torrando bilhões por ano em auto-promoção capciosa, ademais de
enriquecer aquelas agências ou profissionais do setor (a propósito, em que pé
está o imbróglio do Marcos Valério??? ou o enriquecimento estrondoso do
"Lulinha"???) que participam do jogo governamental. Terceiro: a
segurança, em sentido lato, continua no limbo das intenções do Estado,
propiciando o crescimento do crime (organizado ou oportunista) sem que se vejam
ações efetivas, eficazes e, principalmente, inteligentemente estruturadas e
desenvolvidas, ratificando algo que de há longos anos se ouve: o crime parece
estar muito melhor organizado e parece ser mais "ético" (segundo,
claro, seus próprios valores deturpados) do que a sociedade legalmente
constituída e do que os órgãos constitucionalmente criados para seu combate. O
cidadão é refém dessa trágica situação e tornou-se um eterno recluso em seus
limitados horizontes legais, nada obstante também estes (as residências) hoje
sejam alvo fácil para a prática hedionda de delitos de toda espécie. Em suma,
vivemos um estado oficioso de sítio, onde as forças que nos sitiam compõem-se do
crescente "exército marginal", melhor armado, mais preparado e com o aliciante
de não temer represálias por parte, tanto da sociedade (desarmada) como das
forças legais de combate a ele (pessimamente estruturadas e equipadas para tão
descomunal desafio). Quarto: os três poderes (sonhados por Montesquieu e hoje
tornados pesadelo social) estão clara e insofismavelmente infestados de indivíduos
que visam apenas seus próprios interesses, desconhecendo a existência de uma
sociedade a quem, por norma democrática e constitucional, deveriam de respeitar
e dar condizente satisfação. Digladiam-se entre eles para ver quem é mais
esperto e consegue se locupletar em maior volume e menor espaço de tempo, na
conquista das suas altamente condenáveis benesses. É, segundo minha ótica, um
verdadeiro "estado de pré-caos", antecedente à anarquia generalizada
e institucionalizada. Belo cenário!
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E a lei e a ordem? Bom, esta resiste garbosa e teimosamente apenas no
papel, encerrada que foi em cárcere privadíssimo, paradoxalmente por aqueles em
quem o povo depositou sua confiança e doou seu voto, elegendo-os e esperando
destes uma reação diametralmente contrária à que ostentam e praticam. Algo
deveras bizarro, às avessas, tenebroso, de difícil adjetivação adequada. Algo
semelhante ao praticado durante a Idade das Trevas, nada melhor para ilustrar
este status quo. O legítimo panem et circenses do Império Romano,
modernizado e - bom destacar - aprimorado com excelência (negativa, of course). No lugar da lei e da ordem, reinstituiu-se
- com muito mais ênfase nos últimos dez anos - o sistema do escambo em sua versão pós-moderna: a
troca, pura e simples, de interesses e favores mediante conchavos espúrios em
plena luz do dia (ou na calada da noite, regado a lautos jantares etílicos). É
como se a sociedade não existisse, apenas aqueles que se encontram no poder. Da
noite para o dia, nascem novos milionários, indigentes em educação, em moral,
em ética. Nascem e se reproduzem à velocidade de endemias altamente perniciosas
e destruidoras, a ponto de, em razão da sua contumácia, tornar-se usos e costumes aceitos e inocentemente
deglutidos pelo povo. Algo que deveras retrata, fielmente, uma sociedade
política em franca decadência, antítese do conceito histórico de democracia.
Não existe mais pudor ou vergonha em agir às claras, visto não haver qualquer
temor em relação aos potenciais (e teóreticos) rigores da lei, graças a uma
Justiça tardia e falha, leniente, omissa e igualmente infestada por aquela
endemia.
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Que fazer? Uma análise perfunctória mostraria que o voto ainda pareceria
ser o melhor caminho pacífico para reformar esse status quo. Mas, na prática, uma massa alienada, alheada e
assentada em falsos e efêmeros valores, voltada a interesses meramente
passageiros e populescos, não se presta a essa postura reformatória. Até
porque, mesmo se um remotíssimo milagre viesse a ocorrer, os repentinamente
despertos se defrontariam com o ingente desafio de não possuir opções adequadas em quem se possa depositar o verdadeiro e
consciente sufrágio. Eis o nosso "Dilema de Sofia": qualquer
escolha será irremediavelmente prejudicial à nossa sociedade.
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Soluções? A educação, em amplo termo (desde o seio familiar até os doutos
pós-grados), demandaria algumas gerações para chegar a um patamar aceitável de
conscientização cívica, moral, ética. A renovação integral da classe política é
franca utopia, visto não termos institutos críveis de formação nessa área,
ademais de interpor-se o intransponível muro do corporativismo pernicioso que
sustenta essa classe. A democracia pura é similarmente um sonho inatingível;
haveria que haver uma lavagem cerebral intensa e generalizada da nossa
sociedade, constituindo-se em desiderato que igualmente beira a utopia. Quiçá
uma nova revolução a exemplo da de 1964, porém mais rígida e abrangente?
Impossível. O povo e as próprias forças armadas foram consciente e maldosamente
desarmadas, manietadas, aliciadas, amordaçadas e subjugadas aos desígnios de
uma camarilha restrita de homúnculos despersonalizados e degenerados em sua
índole psicossocial.
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Sinto imensa pena pelas gerações vindouras, sem
futuro, com um passado obscuro (o hoje)
e que já nascerão infestadas desse maléfico vírus que hoje vige e rege os
corpos e as mentes daqueles que são responsáveis pela hecatombe social em que
vivemos. O nosso futuro a ninguém mais pertence, a não ser a Deus - para quem
acredita Nele.
